Sindicato dos Jornalistas do Estado do Rio

Gênio das curvas

Posted by sindicatodosjornalistas em dezembro 6, 2012

Continentino Porto

Ele veio. Cumpriu sua história. Um caminho cheio de obras fantásticas. Suas curvas ganharam o mundo, um legado universal.

A mídia procurou, merecidamente, destacar o poder criador de Oscar Niemeyer, como uma afirmação do adiantamento da arquitetura brasileira e mundial.

Na verdade, não foram só suas obras que marcaram a vida do mestre dos mestres. Em 1965, ele estava vivendo na Europa, para onde fora depois de passar por Israel, convocado pela Universidade de Haifa. Volta ao Brasil em outubro de 1966.

Numa manhã, Juscelino Kubitschek liga dizendo que ele, Sebastião Paes de Almeida (Ministro da Fazenda) o engenheiro Régis Bitencourt (Diretor do ex- DNER), empresário João de Castilho, iriam depor no Inquérito Policial instaurado em junho de 1966, no Departamento Federal de Segurança Pública,(Hoje Polícia Federal) no Rio. Era uma ordem dos militares da linha dura,

Niemeyer já sabia, pois já tinha recebido a notificação no seu escritório ao anoitecer, convocando-o para o dia seguinte, às oito da manhã. Prestou um longo depoimento. Os militares queriam saber para que projetara o edifício onde JK morava. E porque não cobrara honorários, quem o construira, se Juscelino era proprietário do apartamento.

A finalidade dos militares era intimidá-lo e elaborar processos mesquinhos, como o do seqüestro do apartamento do ex-presidente. Porém, como Niemeyer não estava a par do assunto, pois participara como simples arquiteto, cometeu alguns enganos que, posteriormente, retificou em carta de que “ao fora à firma Rabelo que construíra o edifício, que JK era apenas inquilino, que se tratava de um prédio comum, igual a muitos outros construídos na Avenida Vieira Souto, em Ipanema”. Confessou ser o autor do projeto e que sabia que um dos apartamentos, no último pavimento, com área de 1.420m², se destina a JK.

O depoimento de Niemeyer irritou os militares da linha dura e o coronel que presidia o IPM (Portela) chegou a defender o pedido de sua prisão. Precavido, ele preparou uma resposta em carta que seria publicada nos jornais se tal prisão fosse executada. Na carta, protesta pela insistência com que o delegado procura ameaçá-lo por ser comunista, mas não admite que os militares pretendessem colocar ele contra um amigo que procurou preservar.

“Nos sete anos que trabalhei em Brasília com o ex-presidente Juscelino Kubitschek, dele ficou-me apenas a lembrança de um homem cheio de entusiasmo e idealismo, desejoso de fazer qualquer coisa importante para o seu país”

Alguns mitares que não eram adeptos do grupo da linha dura mostravam-se, além de cordiais, muitas vezes constrangidos ao interrogar os amigos do presidente Juscelino Kubitschek.

Em novembro de 1964, por exemplo, quando retornou ao Brasil, Oscar Niemeyer foi convocado para depor no IPM da Imprensa e do PCB. Apesar de o interrogatório ter durado mais de duas horas e meia, e mesmo sendo somente sobre o Partido Comunista, ele foi tratado pelo coronel com cordialidade, com este muito preocupado em mostrar que estava cumprindo ordens superiores.

O arquiteto mostrou-se despreocupado, interessado em ser objetivo e transparente,procurando nada omitir.

Ao terminar o depoimento, depois de lamentar as circunstâncias desagradáveis em que me conhecera, perguntou-me o referido militar se desejava visitar o meu amigo (Astrogildo Pereira), o que aceitei prontamente, demorando-me longo tempo a conversar com Astrogildo que, de bom humor, contou-me suas peripécias e desconfortos no quartel.

Niemeyer não se esquivou de responder ao coronel que queria saber como ele conheceu Astrogildo Pereira. Foi taxativo:

“Conheci no PCB e se trata de um amigo que muito estimava. Disse-lhe, ainda, que escrevera o artigo aludido e que me pronunciara a favor de Cuba, acrescentando:

“De Cuba e todos os países oprimidos da América, Europa,Ásia e África”

Foram informações colhidas quando fui entrevistá-lo no seu atelier na Av. Atlântica.Ele estava se recuperando de um acidente no braço e esperava o médico para atendê-lo

Despedi-me e desejei que ele ficasse com Deus

Fui surpreendido com uma indagação:

“Deus meu filho ?

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O comunista mais antigo

Fernando Paulino

”A morte do arquiteto Oscar Niemeyer, ocorrida na noite desta quarta-feira, dia 5, coloca um ponto final na vida do comunista mais antigo do Brasil. Niemeyer faria 105 anos de idade no próximo dia 15.  Ao longo da sua vida, associou seu trabalho à ideologia. Desde os tempos de estudante, nos anos de 1930, quando se formou na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, demonstrava ser seguidor dos princípios marxistas, resistindo ao que chamava de arquitetura comercial. Em 1945, já um arquiteto conhecido, iniciou uma forte amizade com Luiz Carlos Prestes e filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Niemeyer emprestou a Prestes a casa que usava como escritório, para que servisse de comitê do partido. Sempre foi um forte defensor de sua posição de stalinista. “Não me sinto importante. Arquitetura é meu jeito de expressar meus ideais: ser simples, criar um mundo igualitário para todos, olhar as pessoas com otimismo. Eu não quero nada além da felicidade geral”, disse certa vez. Em 1936, o escritório onde Niemeyer trabalhava como estagiário, dirigido por Lúcio Costa e Carlos Leão, foi chamado pelo ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema, para projetar o novo edifício do Ministério da Educação e Saúde. Este projeto estava inserido no contexto político do Estado Novo, quando Getúlio Vargas, então presidente do Brasil, usava a arquitetura e o urbanismo como ferramentas para ilustrar os novos rumos da nação em uma fase intermediária, que buscava se transformar de potência agrícola exportadora de café em um país industrializado. Em 1946, o nome de Niemeyer já circulava internacionalmente e ele foi convidado a lecionar na Universidade de Yale, mas foi impedido de atender ao convite por ter o visto negado devido à sua posição política. Em 1955, funda a revista Módulo, no Rio de Janeiro, uma das mais importantes revistas de arquitetura, urbanismo, arte e cultura da década de 50. Sua produção, porém, foi proibida pela ditadura militar em 1965 e só voltou a circular em 1975. A sede da revista foi parcialmente destruída, o escritório de Niemeyer foi saqueado, seus projetos passaram a ser recusados e a clientela desapareceu. Ainda em 1965, 223 professores, entre eles Niemeyer, se demitiram da Universidade de Brasília, em protesto contra a política universitária e retaliações da ditadura militar. Durante alguns anos da ditadura militar do Brasil, autoexilou-se na França. Um ministro militar da época diria que “lugar de arquiteto comunista é em Moscou”. Visitou a União Soviética, teve encontros com diversos líderes socialistas e foi amigo de alguns deles. Em 2007, presenteou Fidel Castro com uma escultura de caráter antiamericano: uma figura mostruosa ameaçando um homem que se defende empunhando uma bandeira de Cuba. Niemeyer retorna ao Brasil no começo dos anos 80, no início da abertura política, quando da anistia dos exilados no governo João Figueiredo. Na ocasião, o antropólogo Darcy Ribeiro, amigo de Niemeyer, era vice de Brizola, ex-exilado e governador do Rio de Janeiro, eleito em 1982. Para consolidar os projetos educacionais e culturais de Darcy Ribeiro, Niemeyer projeta os CIEPs e o Sambódromo do Rio de Janeiro, que possui salas de aula sob as arquibancadas. Ainda em 2007, ano de comemoração do seu centenário, Oscar Niemeyer aceitou ser presidente de honra do Centro de Educação Popular e Pesquisas Econômicas e Sociais CEPPES, centro de estudos fundado por Luís Carlos Prestes. Em uma das suas entrevistas, já centenário, perguntado se ainda se indignava com a violência no Rio de Janeiro, a resposta foi rápida e objetiva. “O dia em que eu não mais me indignar é porque morri.” (Fontes: Agência Rio / Agência Brasil / Pesquisa na internet)

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