Sindicato dos Jornalistas do Estado do Rio

Os heróis de Lula estão gangrenados ?

Posted by sindicatodosjornalistas em dezembro 4, 2012

Pinheiro Junior

   Em “As Neves do Kilimandjaro”* de Ernest Hemingway, o personagem Harry delira sob o peso da morte que se anuncia. Ele foi ferido por um espinho, a ferida foi mal tratada e o socorro é difícil na savana africana. O delírio cai sobre ele em tumultuadas recordações, como a histórica repressão após a derrota da Comuna de Paris**. A punição para os communards que ousaram ser eleitos chegava à cidade com as armas empunhadas pelas tropas de Versailles. Os soldados da reação examinavam mãos por mãos de quem estivesse nas ruas. Se fossem mãos calejadas, mãos de operários, de trabalhadores – mãos daqueles que empolgaram o poder para salvar a França – eram consideradas mãos culpadas. E os presos com tão evidentes sinais revolucionários eram passados pelas armas.

-… “Eram os descendentes dos communards e para eles não era preciso um grande esforço para saberem da sua política. Eles sabiam quem matara os pais, os parentes, os irmãos e os amigos quando as tropas de Versailles entraram na cidade e a tomaram depois da Comuna e executaram quem quer que apanhassem de mãos calosas ou que usasse boina ou exibisse qualquer outro sinal de que era trabalhador”…

   Harry, o personagem ferido de Hemingway que agonizava no acampamento à vista do nevado Kilimandjaro sentia com a crueldade da morte o tropel de lembranças contundentes. A morte, sempre cruel, sempre intolerante, sempre absurda, pesa sobre ele como um corpo obscuro e indefinido. Nem foice nem caveira, a morte se chega como a hiena oportunista de focinho largo que fareja a presa indefesa. As hienas chegam rápidas, tão rápidas como chegaram as obscenas aves escuras também atraídas pelo odor da gangrenada ferida de Harry.

O delírio de Harry atravessa o misterioso tempo literário e remete o leitor à real fragilidade de um líder do outro lado da montanha e através do Atlântico. Um lider de nome Lula***, o poderoso metalúrgico que perdeu parte do dedo e sonhou com a redenção do seu povo, os trabalhadores de sofridos salários. O povo entrou em seu sonho e confiou na sua simplicidade operária de mãos calosas que reacenderam esperanças tão longamente apagadas.  A ilação Harry/Lula não é nenhum delírio. Está na cabeça de todos, até das hienas e dos corvos.

– “Lula é bom e ingênuo. Pensou que as elites, aqueles que sempre sonegaram escolas aos filhos de João e Maria, sempre dilapidaram os salários de João e Maria, sempre jogaram João, Maria e seus filhos nos cortiços sem luz e sem água, e os encerraram nas favelas ou nas cadeias imundas, pensou que aproveitadores, esfomeadores, ladrões dos pobres, pensou que eles iam engolir um operário no poder”.

Lula, o bom; Lula, o ingênuo esperto de poucas letras e vasto ideal. Que deu universidade a quem como ele nunca teve escola.

Vão tentar destruir esse Lula. Estão tentando destruir. Hienas saíram dos covis da intolerância. São as tocas ainda abertas da ditadura de onde vem esse “hálito dos diabos”. As aves sujas estão pousadas nas cumeeiras dos três poderes… Mas Brasília não é só carniça! Nem os heróis de outrora estão em coma ou parecem possuídos pela eventual gangrena do poder. A história dos oito anos do operário presidente pode continuar. Porque é bem mais que um conto de desesperança.

(*) “As Neves do Kilimandjaro e Outros Contos” de Ernest Hemingwy, publicado em 1936, reeditado diversas vezes pela Penguin Book (1968) e em 2011 pela Bestbolso. Adaptado para o cinema pelo diretor Henry King (1952) com Gregory Peck e Ava Gardner.

(**) Comuna de Paris (1871), primeiro governo operário da história, durou cerca de 70 dias, instituiu reformas socialistas e foi esmagado por tropas da Assembléia de Versailles que executou mais de 20 mil communards.

(***) Luiz Ignácio Lula da Silva, fundador do Partido dos Trabalhadores (PT,) primeiro presidente operário do Brasil eleito em 2002, reeleito em 2006. Instituiu reformas sociais que tiraram milhões de brasileiros da pobreza e ampliaram historicamente a classe média.

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