Sindicato dos Jornalistas do Estado do Rio

Eleitorado rumo à esquerda

Posted by sindicatodosjornalistas em outubro 11, 2012

* Fátima Lacerda

Discordo daqueles que dizem que o mensalão não afetou o PT. Foi uma estratégia dos tucanos para deter o crescimento do PT. Lula e Dilma, com o alto índice de aprovação popular que tiveram e têm em seus governos, temperaram o resultado. Apenas a direita não capitalizou nem os votos nem a credibilidade. O voto na ética, que já foi do PT, migrou em muitos lugares, como no Rio (basta verificar e comparar os votos de legenda) para o PSOL: foram cerca de 20 mil para a legenda do PT e 115 mil para o PSOL (é claro, em grande parte carregada pelo carisma e confiabilidade de Marcelo Freixo).

No plano nacional, é inegável que houve um crescimento do PT. Em 2008 o partido conquistou 550 prefeituras. Em 2012, 628. Na base aliada do governo, o PSB, partido tradicionalmente identificado como de esquerda também cresceu: subiu de 308 para 436 prefeituras. O PMDB, de centro, encolheu em torno de 15%, passando de 1.193 prefeituras para 1.025.  Os grandes derrotados foram os partidos de direita. O PSDB caiu de 787 para 693 prefeituras e o DEM despencou de 495 em 2008 para 275 em 2012.

Partidos menores da base aliada, de esquerda, também cresceram. Em 2012, o PC do B conquistou 51 prefeituras – 10 a mais que em 2008. E vai disputar o segundo turno em Manaus Contagem, (MG); Belford Roxo, (RJ) e Jundiaí, (SP). Mas apesar da indiscutível vitória, em números absolutos, da base aliada do governo, há fortes indícios de que o PT foi barrado em seu crescimento. Se a aceitação popular do ex-presidente Lula e da presidenta Dilma se refletissem no voto partidário, a legenda colheria resultados melhores.

Não há como negar o impacto negativo do mensalão, ainda que amortecido por outros aspectos. Como a queda na desigualdade de renda, durante aquela que está sendo chamada de“década da inclusão”. Entre 2003 e 2009, saíram da linha de pobreza 27,9 milhões de brasileiros, segundo dados divulgados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT),  em razão do “ aumento real dos rendimentos do trabalho, sobretudo do salário mínimo, à ampliação da cobertura dos programas de transferência de renda e de previdência e assistência social – que contribuíram para o aumento do rendimento domiciliar –e também pelo incremento da ocupação, principalmente do emprego formal”, diz o documento da OIT.

São dados que pesam na balança, em favor do governo e de seus aliados, na hora do voto. Restou às forças de direita, respaldadas pela mídia, a campanha da moralidade, orquestrando o julgamento do “mensalão”simultaneamente ao processo eleitoral. Mas a direita não colheu os frutos. As velhas formas de fazer política estão sendo colocadas em xeque pelo eleitor que está em busca do novo. Os velhos coronéis, o discurso udenista, as tramóias das elites já não convencem a maior parte do eleitorado.

O perfil do voto mudou, migrando para a esquerda, o que pode ser atribuído a mudanças culturais introduzidas por Lula. O ex-presidente ganhou a eleição, mesmo com os respingos do mensalão. Dilma é considerada “ética e competente”. Mas não transfere essa imagem para o PT. Nesse sentido, a imprensa dominada pelo tucanato marcou alguns pontos. Mas o PSDB conquistou uma vitória de pirro. Pois o eleitorado votou à esquerda e o voto na ética não foi para os tucanos. Alguém ainda seria capaz de acreditar na persona do Serra, por exemplo?

O eleitor está mais maduro, mais seletivo e mais voltado para quem tem compromisso com as questões sociais. Uma pesquisa mais aprofundada poderá comprovar que o grande artífice dessa mudança de perfil do eleitor médio é o ex-presidente Lula. Ele contribuiu, e muito, para uma mudança cultural e de costumes. O Brasil está menos conservador. O brasileiro ganhou auto-estima. Está em busca daqueles que, de fato, o representem, sem passar procuração para os “ricos e capazes”. Penso que, nessas eleições, passos importantes foram dados na superação do paternalismo e do coronelismo. Resta ao tucanato promover a intriga, fomentando o racha na base aliada, sobretudo entre PSB e PMDB.

*Fátima Lacerda é jornalista da Agência Petroleira de Notícias

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: