Sindicato dos Jornalistas do Estado do Rio

Lou Pacheco “apenas partiu”

Posted by sindicatodosjornalistas em agosto 24, 2012

Pinheiro Junior

      Maria de Lourdes Freitas Pacheco foi a boa e solícita companheira de todos no dia-a-dia das redações do antigo O Estado, da velha Ultima Hora (décadas de 1950/1960) e do infante Lig, jovem e vitorioso hebdomadário. Noticiar que Lou morreu aos 90 anos, a 22 de agosto último e foi sepultada no dia seguinte no Parque da Colina, é no mínimo uma informação mal apurada. Ao produzir a pioneira coluna sobre a sociedade especificamente niteroiense para a edição fluminense de UH, ela na verdade acabou por conquistar o imaginário jornalístico social, segundo o qual “tudo passa, mas tudo volta a ser como sempre foi”. O axioma é por demais óbvio para ser atribuído a um único estudioso do jornalismo especializado em frivolidades aldeãs.  Mesmo assim é bom lembrar que Lou estava mais para uma versão feminina do intelectualizado Jacintho de Thormes do que para uma apresentação coqueteleira de Ibrahim Sued. Versão feminina, aliás, muito a vontade ao acompanhar a louca corrida das damas e senhores niteroienses em busca da fácil notoriedade proporcionada pela cronista incendiária, no bom sentido, pois Lou era sim uma promotora de fogueiras de vaidades – aquela “Fogueira de Vaidades” que o cinema haveria de celebrizar 30 anos depois com o filme de Brian DePalma. Muito embora ou principalmente porque Lou fazia por onde queimar nesta pira de colunáveis os menos vulgares e abrindo espaço para artistas e poetas, escritores, como os Francisco e Luiz Antônio Pimentel, as Maria Jacintha, os Carlos Couto, os Sávio Soares de Souza, os Geir Campos, os Nelson Pereira dos Santos… Estes dois últimos sem nenhuma vantagem local, aliás, pois tão nacionalmente famosos se fizeram como se fez Antônio Maria que, quando sentia fome de carne assada, vinha frequentar um terreiro gastronômico no Morro do Estado e não escapava de ser desnudado na coluna de Lou em UH.

      Casada com o psiquiatra Hélio Rosa, cunhada do maior dos nossos compositores populares, Noel Rosa, quando Lou surgia nos salões era inevitável o zum-zum-zum das mariposas e dos zangões de plantão nos clubes à beira praia de Icaraí e da Major  Froes. Lou era, porém, muito mais que uma mera resenhista de festas e modas, de fofocas críveis e incríveis. Porque tinha o que o então editor de UH-Flu, Theodoro de Barros, chamava de “consciência social-ideológica”. E sabia, como Gonçalves Dias, que “a vida é um combate e viver é lutar!”. Viveu assim até se aproximar dos 100 anos que todos apostavam que ela romperia para não deixar solo o jovem centenário Luiz Antônio Pimentel. Mas lutar, quando a ditadura chegou, era crime punido com campo de concentração no Caio Martins ou com Caserna General Fonseca Ramos, onde recolheram Lou e tantos outros até que a canalhada golpista se mancou e a soltou, não sem antes submetê-la a humilhações. A própria Lou nunca se supôs uma subversiva. Mas humilhar jornalistas era praxe político-militar pelo simples fato profissional de que os suspeitos eram jornalistas. E se trabalhassem em UH, mais suspeitos, mais perseguidos seriam.

                Lou fez escola e continua viva, bem no coração da matéria dos velhos e jovens companheiros de todos os jornais.  Inclusive – e principalmente – do hebdomadário Lig, uma invenção editorial que deu certo e navega nos fins de semana por Icaraí e adjacências, recebendo carinhosa acolhida de leitores da cidade que Lou amou e soube retratar como ninguém. Como no poema “Apelo” de Vinicius de Moraes, os velhos companheiros agora cantam em surdina a melodia que é de Baden Powel:

-“Se tu soubesses como é triste eu saber que tu partiste…”

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